Governo do Distrito Federal
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Carta topográfica e administrativa da província de Goiás

 

 

Apresentação/Leitura paleográfica

 

 

A pouca produção cartográfica, após a Proclamação da Independência do Brasil, esteve ligada a alguns fatores como: “ênfase nas atividades de preparação militar; constantes reduções do seu efetivo e aproveitamento dos engenheiros desse corpo na execução de obras civis e falta de engenheiros e de escolas voltadas à formação de engenheiros civis”.1 Para superar essas restrições, “optou-se inicialmente pela contratação de mão de obra estrangeira e pela utilização daquelas cartas e mapas antigos, […] o que contribuiu para a produção de cartas e mesmo de Atlas contendo um número muito grande de erros”.1

 

Portanto, não é de se estranhar que os mapas das províncias durante o século XIX constituíam, em sua maioria, cópias da cartografia colonial e de roteiros de viagem desse período. Exemplo disso, para a Província de Goiás, é a “Carta Corográfica Plana da Província de Goyaz e dos Julgados de Araxá e Desemboque da Província de Minas Gerais” organizada pelo Brigadeiro Raimundo José da Cunha Matos, para acompanhar seus “Itinerários” escritos em 1826 e publicados em 1836, sendo o mapa litografado em 1875. Ali, ainda consta o “Sertão da Farinha Podre” como fazendo parte do mapa de Goiás quando, de fato, a região já pertencia a Minas Gerais desde 1816.2 No artigo “A cartografia das duas Comissões Cruls para a construção da nova capital no Planalto Central”, (Cf. neste GUIA p. 232) afirmamos, segundo informações do Relatório Final da Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil que “no período da viagem da Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, os mapas de Goiás ainda estavam ‘grosseiramente mal figurados’, como também apresentavam informações topográficas que de fato não existiam”.

 

Foi nesse contexto que um grupo de empresários, sob a coordenação do Visconde de Villiers de L’Ille Adam, irá publicar um Atlas com a representação de várias províncias do Império do Brasil, publicação na qual a presente “Carta Topográphica e Administrativa da Província de Goyaz” faz parte.

A iniciativa foi tão importante que o grupo elaborou uma “Carta de Solicitação de Apoio” ao Atlas encaminhada, em 1847, ao Governo Imperial. Segundo essa carta, o que os motivou foi o fato de que a divulgação de conhecimentos geográficos e estatísticos é “a primeira condição do bem estar de huma nação”, tanto para a “boa administração geral e local dos estados”, como também para a “instrução da mocidade” a fim de que conheçam “em primeiro lugar seu próprio país”.1

Segundo eles, “até hoje nenhum mappa do Brasil offerece a divisão administrativa: e há províncias de que nunca existirão mappas. Os exemplares das que se publicarão são hoje raros no Brasil e não se encontram fora do Império. Foi a escassez e falta destes documentos, indispensáveis ao Brasil no seu estado de civilização, que induzirão os empresários a dedicarem-se á huma tarefa, aliás tão difficil e custosa como interessante os anima á recorrerem à Nação”.1 A carta solicitando apoio informa ainda que “O Atlas physico e administrativo será lithographado, e constará de 20 a 25 mappas das províncias. Todas estas serão reduzidas ao meridiano do Rio de Janeiro, e à mesma escala, de sorte que os mappas particulares reunidos formem o mappa geral do Império. Cada hum dos mappas estará dividido em comarcas e freguesias”. Em outra carta informam que na produção dos mapas das províncias aproveitam “os escellentes trabalhos de antecessores na matéria, Eschwege, Muller, Cunha Mattos, Machado de Oliveira Martins, Visconde de S. Leopoldo, Niemeyer…”. E, além disso, o grupo tem “estudado com a maior attenção as leis provinciais, as erecções novas de freguesias e villas, e a organização territorial a mais recente, […]. Entretanto, sabemos que apesar de todos os nossos esforços, devemos ter cahido em numerosos erros”.1

 

O mapa “Carta Topographica e Administrativa da Província de Goyaz” de 1849 é importante para a história da cartografia goiana porque é o primeiro em que o território do “Sertão da Farinha Podre” não é mais representado como fazendo parte da “Província de Goyaz”. Por sinal, é neste mesmo conjunto de mapas publicado por esse grupo de empresários que, na “CARTA TOPOGRAPHICA E ADMINISTRATIVA DA PROVÍNCIA DE MINAS GERAES” erigida sobre os documentos mais modernos, pelo Visconde J. de Villiers de L’Ille Adam é representada a anexação do território dos “Sertões da Farinha Podre” ao território mineiro.2

Portanto, entre o fato político (1816) da anexação de parte do território goiano para o território mineiro e sua representação na cartografia (1849), temos um atraso de 33 anos.

 

Leitura Paleográfica:

“CARTA TOPOGRAPHICA & ADMINISTRATIVA DA PROVÍNCIA DE GOIAZ, erigida sobre os documentos mais modernos pelo V.cde J. de Villers de L’ Ile Adam. Gravada na lithographia imperial de Vr. Laréé. Publicada no Rio de Janeiro por Garnier Irmãos Livreiros. Rua do Ouvidor nº 69. Rio de Janeiro. 1849.

NOÇÕENS ESTATISTICAS.

Divisões administrativas da Província de Goyaz

  1. Comarcas / 1. Cidade / 21. Villas / 2. Julgados / 39 Freguezias – mais de 100 capellas filliaes

COM.A DA CAPITAL

1 Cidade / 7 Villas / 19 Freguezias

CID.E DE GOYAZ

Freg.a de S. Anna, na Cid.e

“        da Abbadia do Curralinho

“        de S. Jose Mossamedes

“        do Pilar do Bom Jesus da Anta (em S.a Rita)

“        N. S. da Barra do R.o Claro

“        S. Fran.co de Assiz de Anicuns

“        Dores do Rio Verde

“        N. S. do Pilar de Ouro fino

V.a DE JARAGUA

Freg.a N. S. da Penha, na Villa

V.A DE MEIA PONTE

Freg.a do Rosario, na Villa

“        Freg de N.S. da Penha de Corumba

V.A DE S. JOSÉ DE TOCANTINS

Fr.a S. Jose, na V.a

V.A de S. FELIS

Fr.a da Villa

V.A DO PILAR

Fr.a N.S. do Pilar, na V.a

“        do Carretão

V.A DE TRAHIRAS

Fr.a da Villa

“        d’Agoa quente

V.A DE CRIXA

Fr.a da Villa

“ “     da Conc.ão de Salinas e R.o Peixe

COM.A DE SANTA CRUZ

5 Villas / 8 Freguezias

V.A DE S.A CRUZ

Fr.a da Villa

“        do Carmo dos Morrinhos

V.A DE S.A LUZIA

Fr.a da Villa

V.A DE BOM FIM

Fr.a da Villa

“        de Campinas

V.A DO CATALÃO

Fr.a da Villa

“        do Esp.o Sto. de Vaivem

V.A FORM.A DA IMPERATRIZ

Fr.a da Conc.ão na Villa

COM.A DE CAVALCANTE

4 Villas / 2 Julgados / 7 Freg.as

V.A DE CAVALCANTE

Fr.a de S. Anna na Villa

V.A DE S. JOÃO DA PALMA

Fr.a da Villa

V.A DE ARRAIAS

Fr.a da Villa

“        de S.a Maria de Taguatinga

V.A DE FLORES

Fr.a da Conc.ão na Villa

“        de Sta. Rosa

“        de S. Domingos (Julgado)

V.A DA CONCEIÇÃO

Fr.a da Villa

COM.A DO PORTO IMPERIAL

[ilegível]

V.A DO PORTO IMPERIAL

Fr.a das Merces na Villa

“        do Carmo

V.A DA CAROLINA

Fr.a de S. Pedro d’Alcantara na Villa

V.A DA NATIVIDADE

Fr.a da Villa

“        do Carmo (Lei Nº4, 8 jan.o 1849).

(há duas Fr.as do Carmo na Comarca)

Colonia de Pedro Affonso (a la Confluenia no Tocantins

A Freg.a do Bom Jesus d’Anta he transferido a S.a Rita. A Fr.a de S. Jose do Douro e a de S. Miguel e Almas forão re-centemente supprimidas; a do Pontal nunca foi legalmente creada, como também a V.a de Boa Vista instaurada por decreto de 18 de Abril de 1834. Das 39 Freg.as acima declaradas so 37 são contempladas nas peças officiaes bastante incompletas que possuímos, e nos é impossível saber quaes são as duas que se hão de considerar como somente nominaes.

 

Esta província he de tudo central, não tendo nem porto do mar, nem Fronteira estrangeira. Riquissima de diamantes, ouro, ferro, salitre, sal-gemma, madeiras, drogas & c. de nada quasi se aproveita, seus habitantes vivem bastante mal e porem são muito industriosos e trabalhadores, fabricão boa louça de barro, bons tecidos de algodão e de lãa. Os rendimentos provinciaes de Goyaz orção em 50 a 60 contos de reis, quantia muito insufficiente; seu commercio não passa de 220 a 240 contos de importação e altretanto em exportação. As escolas são pouco numerosas & c. & c. 82.562 habitantes em 1849 sem os municípios de Sta. Cruz, Catalão e Palma.

NOTAÇOENS

Capital da Província / Cidade ou Capital de Com.a / Villa / Freguezia / Capella /Povoação (muitas vezes sem nome)

[símbolo] Grão caminho

[símbolo] Cam.os

[símbolo] Limites de Prov.a

[símbolo] Comarca

Petipé de 20 legoas ao grao

O Meridiano he o de R.o de Jan.o 45º35’54’’ de Paris.

NOTA

As limites meridionaes da Província de Goyaz são pessimamente suppostas. A Freg.a de Sta. Anna da Paranahiba, situada perto de Pontal do Paranahiba no Parana, pertence ao Matto Grosso, porem todos os mappas fazem descer a província de Goyaz até a confluência do R.o Pardo no dito Parana, ou mais de trinta legoas ao sul, o que não pode concordar com a posição de Sta. Anna sendo esta Freg.a do Matto-Grosso. Tambem a limite esta com Minas bastante duvidosa e parece seguir o Rio S. Marcos e não o cume da Serra de Marcella. É ainda muito notável que duas povoaçoens consideráveis e do nome do Carmo dos Morrinhos existentes nos Sertoens visinhos a Paranahiba, huma d’estes é Freg.a e depende do Municipio de Sta. [pedaço do texto rasgado] outra que é de Minas vem de ser errigida em Villa, d’ esta ultima só podemos saber a posição provável. Nosso mappa carece pois de muitos dados, porem pensamos que assim mesmo é o menos incompleto que haja.

Referências:

1 – COSTA, Antônio Gilberto. Roteiro Prático de Cartografia: da América Portuguesa ao Brasil Império. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2007, p. 168-173.

2 – COSTA, Antônio Gilberto. A cartografia do território de Minas Gerais e seus limites oitocentistas: anexações e desmembramentos. IV Simpósio Luso-Brasileiro de Cartografia Histórica. Porto – Portugal, 2011.

Fonte – Arquivo Nacional – Rio de Janeiro

Medidas – 114 cm × 48 cm

Data – 1849

Localização – F2/MAP.170

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